Blog do Editor do Scream & Yell
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CSS, Devo e Rapture: bons shows em São Paulo

 Após o fiasco da edição paulista do Tim Festival na Arena Skol duas semanas antes, a expectativa de assistir a um festival realizado em um local inóspito sem histórico de shows não era das melhores. Uma reportagem da Folha de São Paulo, na manhã de sábado, alertava: “Festival ocupa galpões e espera chuva, (…) e se chover a situação pode ficar precária”. Apesar de toda uruca, o Planeta Terra 2007 deve fechar o ano como o festival que colocou o badalado Tim no chinelo (em 2005 foi o Claro Rock; em 2006 o Nokia Trends).

De fácil acesso, a Villa de Galpões do Morumbi (na verdade, um decadente conjunto industrial que abrigou durante anos uma fábrica de plásticos) foi adaptada para o festival de forma exemplar. A produção não procurou esconder a decadência do local (e vamos combinar: isso casa perfeitamente com o rock e a música pop), e tratou de usar este fator a seu favor sem, de maneira alguma, desrespeitar o público. Tudo aquilo que o público reclamou do Tim Festival duas semanas atrás aqui estava praticamente perfeito.

Da limpeza (uma equipe passou o festival todo recolhendo o lixo produzido pelas mais de 15 mil pessoas) passando pela alimentação (além de uma praça muito bem armada com várias opções, o festival tinha vários caixas, vários pontos para comprar cerveja, e ainda carrinhos de sorvete Rochinha, de pipoca e algodão doce feitos na hora), pelo respeito aos horários dos shows (Lily Allen começou com dois minutos de atraso; CSS entrou no palco três minutos antes do previsto) e pelos preços corretos (um refrigerante ou garrafa de água R$ 2 contra R$ 5 no Tim), o Planeta Terra exibiu em sua primeira edição uma produção cuidadosa que merece elogios.

Porém, ninguém vai a um festival para comer algodão doce e tomar sorvetes Rochinha. As facilidades propostas pela organização do evento merecem aplausos, mas um festival se faz de boa música, e é nesse ponto que o Planeta Terra deixou um pouco a desejar. O line-up mediano que juntava uma inglesinha metida a besta (a fofa Lily Allen), um dinossauro da new wave (os tiozinhos do excelente Devo), uma banda brasileira famosa na gringa (os ótimos CSS) e um dos melhores nomes da nova cena nova-iorquina (o Rapture, que já tinha feito um show contagiante no Brasil em 2003) não prometia shows antológicos, mas apenas entretenimento enquanto se saboreia um bom sorvete de palito.

Um dos fatores interessantes de se assistir a um festival bem estruturado é que não há tempo para descanso: enquanto você perde tempo esticando as pernas algum bom show está começando em uma das tendas, e não dá para ficar olhando estrelas. Assim, ali pelas duas da manhã já estava difícil não pensar nos joelhos castigados. Foi um alivio quando o vocalista do Kasabian (só no Brasil para uma banda de terceiro escalão se tornar headliner de festival; chega a ser uma afronta ao Pato Fu, que tem muito mais hits e personalidade que o grupo britânico) gritou pela última vez “Sãoooo Paooolo”.

Os portões se abriam às 17h. O último show iria acabar às 2h e tanto. Tantas horas em pé andando de um lado para o outro não são uma das tarefas mais fáceis, por isso acabei cabulando os shows de Supercordas (que trouxe Tatá “Jumbo Elektro” Aeroplano como integrante especial) e Lucy and The Popsonics. No momento que pisei o Main Stage, o Pato Fu iniciava sua apresentação com “Mamã Papá”, do excelente disco novo, “Daqui Pro Futuro”. O show, mais curto que o usual, foi repleto de declarações de amor de Fernanda Takai e John Ulhoa ao Devo. “Vocês não sabem o que é passar metade da vida com uma camiseta escrita Devo no peito e estar aqui agora”, contou um emocionando John. O show valeu pelo resgate de “Gol de Quem?”, faixa título do segundo álbum dos mineiros pouco executada ao vivo.

Tokio Police Club (foto maior) e Datarock (fotos menores) fizeram um barulho dos diabos no palco Indie do festival. Apesar do som embolado, o Tokio Police Club soou interessante, mas o máximo que se pode dizer da apresentação é que foi correta. Fresquinho que é no cenário pop, o Tokio Police Club podia fazer uma noite antológica na Funhouse, n’a Obra, no Teatro Odisséia ou no 92 Graus. Num festival eles são apenas um passatempo barulhento, o que não deixa de ser ok. Já o Datarock pareceu mais bem encorpado e mais pesado que nos MP3 que circulam por ai. Não vale a comparação – na brincadeira – com o Sepultura perpretada pelo vocalista, mas é uma boa diversão.

Lily Allen é baixinha, mas invocada. Despeja palavrões em um microfone verde-limão enquanto bebe no gargalo para comemorar o último show da turnê do platinado álbum “Alright, Still” – e bêbada acaba esquecendo as letras de suas próprias canções. Desfila no palco com um bonito vestido azul enquanto sarreia o tamanho do pênis de um ex-namorado em uma canção e reclama da microfonia que insiste em marcar presença na apresentação. A banda afiada dá um sotaque ska para o som (que até cover do Speciais teve), mas o show é morno, quase frio. Se mesmo a fofíssima versão de “Everbody’s Changing”, do Keane (presente no álbum “The Saturday Sessions: Dermot O’Leary Show”) soou deslocada imagine “Heart of Glass” do Blondie. Boa ressaca, my dear.

O retorno do Cansei de Ser Sexy para São Paulo não poderia ter sido melhor. Após ter tocado em palcos de todos os cantos do mundo, o grupo mostrou em São Paulo uma unidade e uma maturidade que devem ter assustado aos detratores. É gratificante ver que a badalação da imprensa britânica – tanto de música quanto de moda – não afetou em nada o excelente desempenho de Lovefoxxx. Ela continua rolando no palco, pedindo alegria para o público e fazendo as mesmas tiradas sem graça do início da banda (desta vez foi uma brincadeira com a Xuxa). O repertório – com exceção da inédita “The Beautiful Song” e da cover do L7, “Pretend We’re Dead” – não trouxe novidades, mas canções como “Alcohol”, “Off The Hook”, “Alala” e “Metting Paris Hilton” ainda valem um show. Na perfeita “Music Is My Hot Hot Sex” (com Adriano Cintra na guitarra), Lovefoxxx engrossou a voz e trocou a frase “o que eu gosto não é farsa” por “o que eu faço não é farsa”. Se alguém tinha dúvidas já era. Agora é esperar o segundo álbum.

O Devo entrou no Main Stage introduzidos de forma inusitada: um longo vídeo que misturava trechos de clipes avisava, no final, que o Devo era uma experiência que todos precisam viver. Não poderia ter sido mais apropriado. Começando com o hit “That’s Good”, o grupo que está na ativa desde 1972 praticando um rock ácido e bem humorado (cujo exemplo clássico é a divertida versão de “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Stones, presente no primeiro álbum do grupo, “Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!”, de 1978) chacoalhou a audiência com hits do quilate de “Peek-a-Boo!”, “Whip It!” e “Uncontrollable Urge”. Além de fazer um dos melhores shows da noite, também foi do vocalista Mark Mothersbaugh a frase do festival: “Já faz um bom tempo que tocamos no Brasil (1990). Naquela época vocês ainda tinham uma floresta”. Clap clap clap.

Fechando os trabalhos do palco Indie, o Rapture voltou a repetir a aclamada apresentação de quatro anos atrás no Tim Festival. Assim como no show de 2003, o baterista Vito Roccoforte não deu descanso ao público com suas pancadas que “obrigam” a audiência a pular e dançar. Por sua vez, Gabriel Andruzzi provou mais uma vez como o sax pode ser bem usado no rock. Seu solo no hit dançante “Get Myself Into It” foi chapante. O bom baixista Matt Safer continua sendo um dos destaques da banda. E Luke Jenner recebeu o espírito de um guitar hero em vários momentos da apresentação. Conforme o show foi crescendo a massa sonora também aumentou ao ponto de “House of Jealous Lovers” ter soado ensurdecedora. “Olio”, “Don Gon Do It” e “Whoo! Alright Yeah… Uh Huh” foram outros grandes momentos da noite.

Apesar dos bons shows de CSS, Devo e Rapture, o Planeta Terra Festival ficou devendo uma apresentação antológica, daquelas que daqui dez anos alguém vai virar e falar: “Lembra, em 2007, naquele festival, que show sensacional foi aquele???”. Apesar do acerto louvável na organização faltou ao festival um grande nome no line-up, e isso ficou claro na apresentação de encerramento com o Kasabian, cujo rock com pitadas de eletrônico (claramente chupados do Primal Scream) soou tão instigante quanto um programa comandando por Gugu Liberato no meio de uma madrugada qualquer. Fica a torcida para que em 2008 o Festival consiga aliar à qualidade de produção um grupo de artistas que façam valer a pena chegar às três e meia da manhã em casa. Dedos cruzados.

13 comentários

1 Estephano { 11.12.07 at 10:03 am }

Por R$ 80,00 qual seria o line-up ideal?

2 Mac { 11.12.07 at 11:13 am }

Consideração interessante, Estephano:

01) R$ 80 foi o preço promocional; o preço real era R$ 120

02) Um festival como o Planeta Terra assim como o Tim, o Nokia Trends e o Motomix, entre outros, visa fortalecer a marca em questão. O que o público irá pagar de ingresso não influi no custo final de se trazer um artista (que inclui cachê, transporte, estadia e badulaques).

03) Só para comparar, o Personal em Buenos Aires está custando R$ 90 o passaporte para dois dias de um festival que tem Chris Cornell, Happy Mondays, Jamie Lidell, Dandy Warhols, Phoenix, Snoop Dog, Gotan Project, DataRock num total de 44 atrações (três vezes mais do que o Planeta Terra). O line-up equivale ao Planeta Terra (não tem ninguém mega, apesar de que o Chris Cornell deve atrair um bom público), a relação custo/beneficio é muito melhor, e eles ainda podem anunciar Wilco ou Pixies.

Então essa pretensa desculpa de que o preço baixo do ingresso não permite que se traga grandes atrações é bobagem. Um festival desse nível é reforço de marca. É só por isso que, por exemplo, a prefeitura do Rio “deu” de presente para os cariocas (e para o resto do país que esteve em Copacabana) um show dos Stones, que sozinho custa mais que todo o line-up do Terra, e saiu de graça para o público.

Abraço
Mac

3 Rachel { 11.12.07 at 2:59 pm }

Cant believe I wasnt theeere!

:x

4 Diego { 11.12.07 at 6:38 pm }

Eu acho que o seu comentário sobre o Kasabian (melhor que qualquer show dos Engenheiros.. hehe), foi um tanto amargo, talvez você não estivesse na pista se divertindo e dançando. O show do datarock na minha opinião foi antológico !! (nunca pensei que ia falar uma coisa dessa sobre o datarock!!), mas foi realmente empolgante, nunca me diverti tanto na minha vida, cantando fa-fa-fa. E no final acabou entrando para o meu Top 5:
1 - Flaming Lips
2 - Mercury Rev
3 - Primal Scream
4 - Damon and Naomi
5 - sim… Datarock

5 Mac { 11.12.07 at 7:29 pm }

Eu também achei o Datarock um showzão, mas meu Top Five é meio doido

1) R.E.M.
2) Page & Plant
3) Elvis Costello
4) Morrissey
5) Patti Smith

Pearl Jam, Mercury Rev, AC/DC, Brian Wilson e Neil Young completam um Top 10.

Acho que depois de uma lista dessa dá para entender como não dá para levar o Kasabian a sério, né. :)

Na verdade, o grande problema (de quase tudo) é o valor que é dado a cada coisa. O Kasabian é uma bandinha de terceira categoria, então que tocasse em um palco menor, sem grandes expectativas e tal. O Devo fez um show melhor. Rapture fez um show melhor. Datarock fez um show melhor. Até o show do Arctic Monkeys é melhor. A rinha então é com o valor dado a eles, que eles não merecem. Dezenas de bandas que passaram pelo Brasil neste ano poderiam ser headliners de um festival, eles não.

Ps. E até o Jota Quest é melhor que os Engenheiros ao vivo… hehehe

6 Diego { 11.12.07 at 8:25 pm }

haha.. boa mac

7 Diego { 11.12.07 at 8:29 pm }

opa.. ma bem que o Spiritualized poderia vir fazer um showzinho no brasil também

http://br.youtube.com/watch?v=kbLrOLw230k

essa apresentando ao vivo no Jools ainda me deixa com calafrios..

8 PinkPussyCat { 11.13.07 at 5:44 am }

Kasabian não empolgou mesmo e estavamos todos muito cansados pra se deixar empolgar.. imagina se Devo entrasse aquela hora, talvez a moça que escreveu esse texto não teria aguentado a LOOONGA espera que foi o show do Kasabian e desmaiado de sono, antes do Devo… daí não teria mais muito o q comentar sobre o festival, pq se nem um puta show como Devo (ou Rapture) foi suficiente pra agradar a paulistada está novamente confirmada a minha tese de que o paulista não vive bem sem gongar ninguém, (a velha historia dos Pixies e Beastie Boys só terem estado em ctba - que afronta!) e arrumam sempre o que mais à reclamar. E que diabos, se fantasiam pra caralho!!! Figurinos amedrontadores, daqueles que fazem qualquer interiorano se sentir mais bonito, feliz e satisfeito que centenas de paulistas de classe-média-tosca juntos. MEDO! Viva os preços baixos, viva a villa dos galpões e o festival mais perfeito que o brasil já viu. Tá, não foi nenhum Claro de atrações mas teve muito mais encanto que qualquer outro. Né não?

9 Mac { 11.13.07 at 8:26 am }

Encanto por encanto fico com o Nokia Trends 2006, produção excelente no mesmo lugar do malfadado Tim, e um line-up agradável que se não destacou nenhum grande nome fez convencer com bons shows de We Are Scientists, Hot Hot Heat e Soulwax. Então acho limitada essa sua visão bairrista.

E se o Devo entrasse aquela hora com certeza eu - e muita gente - iria sorrir mais… :)

Abraço
Mac

10 regs { 11.13.07 at 1:48 pm }

cala a boca, desde quando kasabian é uma bandinha? cada coisa que a gente lê…

11 André { 11.14.07 at 10:14 pm }

“Por R$ 80,00 qual seria o line-up ideal?”

O do Claro que é Rock, que foi só 40 a mais.

12 Calmantes com Champagne 2.0 » Blog Archive » Nokia Trends 1 x 2 Calor { 12.10.07 at 5:38 pm }

[…] também: - Planeta Terra: “Ninguém vai a um festival para comer algodão doce e tomar sorvetes Rochinha” - Tim Festival: “Eu tenho uma vida fora […]

13 Calmantes com Champagne 2.0 » Blog Archive » Indie bate o Mainstream no Planeta Terra 2008 { 11.09.08 at 3:24 pm }

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