Mostra de SP: “Into The Wild”

“Into The Wild”, Sean Penn - Cotação 4/5
Após anos de graduação em colégio e faculdade, o jovem Christopher Johnson McCandless, de 22 anos, está se formando, mas o gesto de arremessar o barrete (aquele boné preto sem pala que os formandos usam) significa muito mais para o rapaz: Chris está livre das obrigações de uma família infeliz e de uma sociedade capitalista cuja necessidade de consumir afasta o ser-humano de si mesmo, das outras pessoas e da natureza (selvagem). Seu plano é simples: ele “pagou” o preço para a família se dedicado aos estudos, e agora quer desaparecer no mundão de Deus sem lenço, dinheiro e documento.
Chris coloca seu plano em ação doando os 24 mil dólares que guardou na poupança durante a faculdade para uma instituição de caridade. Em seguida, junta algumas peças de roupas, pega seu velho carro e sai sem destino pelas estradas dos Estados Unidos movido a leituras ininterruptas de Tolstoi e Jack London, e pelo desejo de viver em meio à natureza selvagem do Alasca. Sozinho. Em uma desventura perde o carro, e nem se importa. Sai caminhando deixando para trás o veículo e uma fogueira com notas de dólar. Chris exercita o desapego e abandona o próprio nome: agora se chama Alexander Supertramp. O filme é dividido em capítulos que mostram o amadurecimento do personagem.
“Into The Wild”, quarto filme do ator e diretor Sean Penn, toma por base o livro do jornalista Jon Krakauer, que após fazer uma reportagem sobre a história de Chris para a Outside Magazine, decidiu aprofundar sua pesquisa e o resultado se tornou um best-seller nos Estados Unidos. A busca pela felicidade de Chris ganha contornos poéticos e sonhadores nas mãos de Sean Penn, que escorrega para o piegas em uma ou outra passagem, mas que se sai muito bem como obra fechada, comovendo o espectador com uma história verídica que bate forte no lado esquerdo de peito – auxiliada pelas boas canções de Eddie Vedder e por um excelente elenco cujo destaque é grande atuação de Emile Hirsh no papel principal.
A rigor temos aqui mais um caso de família desestruturada. A mãe de Chris se envolveu com seu pai ainda quando ele era casado com outra. Os filhos nasceram sobre a escuridão dessa mentira, e as brigas constantes do casal fizeram à vida de seus dois filhos (Chris tem uma irmã) um pequeno inferno familiar. No primeiro momento em que vê livre dos pais, Chris parte sem deixar rastro nem dar notícias. Sua companheira nesta aventura será uma mochila azul e sua vida agora se passará na estrada com os diversos – e interessantes – personagens que irão cruzar o seu caminho.
Chris não consegue se apegar as pessoas. Seu maior sonho – viver na natureza selvagem do Alasca – é muito mais importante que as relações humanas ao ponto de Chris escrever em seu diário que a felicidade pode ser encontrada no mundo ao nosso redor, na natureza, e não depende das relações entre pessoas. Completamente absorto em seu ideal, Chris parte para realizar seu sonho, vivendo em um ônibus abandonado no meio de uma floresta no Alasca. Como um eremita, ele vive do que a natureza lhe proporciona enquanto o estoque de arroz não termina.
É muito difícil falar de “Into The Wild” sem citar seu final trágico (não vou falar, não vou falar). É muito difícil não pensar em Chris como um rapaz de família abastada que opta por abandonar tudo para viver em um (sub)mundo povoado por pessoas que nunca tiveram nada. Porém, sua trajetória quase hippie é uma belíssima oportunidade de rever mensagens emocionantes que foram deixadas de lado por uma sociedade capitalista cujo “eu” ocupou o lugar do “nós”. Mais do que um “road movie” em busca da felicidade, “Into The Wild” é um filme que valoriza as relações humanas enquanto incentiva o autoconhecimento. E comove. Não será surpresa se encontramos Sean Penn no Oscar. E será merecido…
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“Into The Wild”, trilha sonora de Eddie Vedder - Cotação 4/5
Tocar por 17 anos com a mesma banda é algo que faz sua vida particular (e sua própria personalidade) ficar em segundo plano. Por mais que você consiga se expressar bem, principalmente se estiver à frente do grupo, suas idéias são a idéia da banda, e teoricamente tudo reflete o pensamento e a sonoridade da banda. Isso em uma banda comum. Agora imagine toda essa história no dia-a-dia de um músico de um grupo de mega-sucesso, ícone de toda uma geração, como o Pearl Jam. Por mais que Eddie Vedder se sinta bem representado, aquilo é o Pearl Jam, não Eddie Vedder.
O “verdadeiro” Eddie Vedder pode ser confrontado agora com o lançamento de seu primeiro álbum solo, “Into The Wild”, trilha sonora do filme homônimo dirigido pelo ator e cineasta Sean Penn. Uma lida no resumo do filme já diz muita coisa. “Into The Wild” conta a história real de Christopher McCandless, um jovem que largou tudo (carreira, família, dinheiro) depois de conseguir seu diploma colegial e partiu rumo ao Alasca para viver em meio à natureza. Se as letras de Vedder carregavam um hippiesmo politicamente correto desde a estréia do Pearl Jam, “Into The Wild” amplia o foco e dá mais liberdade para o cantor e compositor soltar as asas e voar.
Em entrevista a Entertainment Weekly, Vedder conta que teve toda liberdade possível para compor a trilha. “Faça o que você achar que deve fazer”, disse Sean Penn. E o que Vedder queria fazer era um álbum essencialmente acústico, nos moldes de “Nebraska”, clássico de Bruce Springsteen, e Neil Young (influência confessa). São onze músicas em pouco mais de 30 minutos de puro Eddie Vedder. Fãs já vão gostar do disco antes mesmo de ouvi-lo. Uma boa parcela do público, no entanto, já se encheu da voz de Vedder. O Pearl Jam tocou (e ainda toca) muito, e a exposição sempre trabalha contra a banda. Porém, conceda o beneficio da dúvida para este álbum antes de torcer o nariz, e a chance de ser surpreendido é enorme.
As cinco primeiras faixas de “Into The Wild” juntas quase não ultrapassam os dez minutos. Eddie Vedder toca tudo no álbum (com exceção de um violão acústico extra em “Society” tocado pelo autor da música, Jerry Hannan, e o backing vocal da Sleater-Kinney Corin Tucker em “Hard Sun”, as duas únicas músicas não compostas por Vedder no disco), de bateria a violão passando por banjo até um ukalele. O som é essencialmente folk, mas a levada pop de “Selling Forth” poderia facilmente galgar a parada de sucessos. “No Celling” traz um interessante trabalho musical, com uma guitarra duelando com o violão nas pontuações do bom arranjo. “Far Behind” segue a linha da anterior, mas é mais roqueira. “Rise” destaca o banjo enquanto “Long Nights” surge dramática.
“Tuolumne” e “The Wolf” são as duas únicas faixas essencialmente instrumentais do álbum, descontando “End Of the Road”, em que o vocalista canta apenas no primeiro trecho, e a versão “Humming Version” da última faixa, “Guaranteed”, que surge como coda após alguns minutos de silêncio. “Hard Sun” é o primeiro single, e é um cover do artista canadense Índio, codinome do compositor Gord Peterson. É também a canção mais longa do disco, ultrapassando os cinco minutos (a versão single é mais curta), mas é grandiosa. Eddie Vedder canta magnificamente bem, e o apoio de Corin Tucker no refrão é plenamente justificável. “Into The Wild” é um belíssimo trabalho solo, um grande disco que serve para lançar um novo olhar sobre um dos grandes vocalistas e songwriters dos anos 90. Eddie Vedder merece a sua atenção.
Novembro 4th, 2007 at 11:25 pm
Marcelo,
vi o filme nesse sábado (inclusive na mesma sessão que vc!) e achei arrebatador. estou sem chão até agora!
ao ser perguntado o que queria com esse filme, sean penn disse que era tirar os jovens de hoje da “zona de conforto”, de seus i pods, videogames, da vida que construíram para nós. o eddie vedder acrescentou dizendo que ultrapassar essa linha é mais fácil e está mais próxima do que se imagina. acho que entendi o que eles querem dizer. o filme é inspirador. muito bem construído, cada imagem vale e diz muito mais que muitos roteiros. a combinação da imagem, da música, dos diálogos… sean penn ultrapassou a linha. no melhor dos sentidos.
Novembro 5th, 2007 at 6:50 pm
O filme é uma tradução real da sociedade de valores em que estamos submetidos, até onde o dinheiro trás felicidade. até onde o homem pode ser selvagem sem interferir na sociedade???São dúvidas que o próprio Chris se pergunta o tempo todo!!! Um ótimo filme tanto pelo seu conteúdo verídico quanto pela sua forma de contar (de Sean Penn), fotografia e a maravilhosa trilha sonora de Eddie Vedder pra acompanhar a jornada.
Na minha opinião melhor filme do ano até agora e sério candidato ao Oscar.
Novembro 6th, 2007 at 4:48 am
Gostei da crítica,Marcelo.Pra mim é um dos melhores filmes que vi na vida.É o quarto filme do Sean Penn. “Indian Runner” (Unidos pelo Sangue). “Acerto Final”, “A Promessa” e agora “Into The Wild”.Abraço.www.enforquesenacordadaliberdade.zip.net.
Novembro 6th, 2007 at 9:38 am
Olá Marcelo, confesso que não vi o filme, mas pela sinopse me identifiquei demais com ele, estou produzindo um documentário para o meu TCC que fala exatamente sobre isso, nômades contemporâneos, “trecheiros”, pessoas que largam toda a história de vida que tiveram para viver andando pelas estradas, sem rumo e sozinhos …
Essas histórias de desapego material e escolha de vida individualista onde se é enfatizado o “eu”, totalmente fora das regras e padrões da sociedade, é algo a ser discutido, já que o aumento dessas pessoas no trecho tem sido notório na atualidade e decorrência de um sistema que hoje prega somente o ter, ter e ter. Valeu a dica!!! Já estou pesquisando onde posso encontrar, já que moro na interior, rs… Filme bom aqui é artigo de luxo, rs.
Novembro 6th, 2007 at 9:54 am
Jaqueline, assim que terminou a sessão, olhei pra Lili e ela estava com os olhos prestes a derramar lágrimas. O que já bastou para que eu também derramasse. Emocionante.
Pedro, obrigado pela correção;
Kátia, ele vai estrear nacionalmente com certeza, e como deve ter um futuro promissor no Oscar, o que irá garantir boa exposição em diversos cinemas! Torço pra que chegue ai!
Novembro 6th, 2007 at 11:43 am
Pois, é Marcelo! Esqueci de um detalhe importante: assim que os créditos começaram a rolar, minha a amiga e eu ficamos presas em nossas cadeiras e choramos… e ficamos assim durante uns 05 minutos…
é um dos melhores e mais inspiradores filmes que já vi em toda a minha vida!
Novembro 6th, 2007 at 11:19 pm
Belo, tocante e emocionado.
A junção imagem/som, neste filme, é precisa e contextual.
Novembro 7th, 2007 at 5:34 pm
Concordo com tudo. Pra mim foi o melhor filme da Mostra (dos que eu vi) e um dos filmes mais emocionantes dos últimos tempos. A trilha só ajuda.
Novembro 9th, 2007 at 3:28 pm
Eu to ansioso para ver esse filme, infelizmente não deu para ver na mostra.
Eu li o livro, e o livro é arrebatador tambem.
A atmosfera do livro é fantastica e o final tragíco é de deixar de queixo caído. Quero ver isso agora no cinema.
Fevereiro 23rd, 2008 at 11:40 am
Não vi ofilme ainda, mas sempre me incomoda a gratuidade anti-capitalista que mais uma vez vejo nas resenhas. Sei que é opinião do escritor do artigo, mas vejamos: senão numa sociedade capitalista, aonde é que o personagem teria liberdade para escolher viver sua vida de acordo com seus pensamentos? Como é que vc fala que o “eu” tomou o lugar do “nós”, e exemplifica isso com um personagem escolheu viver sozinho? O ato de rebeldia é viver o eu, e não o nós! Quem vive o eu não se importa com a imagem do dinheiro, da sociedade, das convenções!
Fevereiro 23rd, 2008 at 6:37 pm
Bruna, primeiro, veja o filme. Segundo, rebeldia é uma coisa, o atropelamento de pessoas que o capitalismo move é outra coisa. Não existe nós no capitalismo. Existe o eu. E há, sim, maneiras e maneiras desse eu viver, seja via capitalismo (em que a pessoa tem uma posição e precisa mante-la em detretimento de outra), seja via solitária, como o personagem do filme. No entanto, como você irá ver em “Na Natureza Selvagem”, há uma micro-sociedade que vive à margem sem se importar com os aspectos centrais da vida capitalista. É um micro-cosmo em que o nós é mais importante que o eu, e com o qual o eu do personagem acaba se relacionando. Quanto a gratuitade, é a mesma que alguém criticar um pensamento sem ter tido acesso a aquilo que moveu o pensamento. Ou seja, escrever sobre um texto que fala de um filme sem ter visto o filme. O que você acha gratuito aqui está explicito no filme. E a máxima da personaficação do eu capitalista é caminhar por uma cidade com São Paulo, dominada por pessoas sem teto, e tocar a vida em frente, afinal, cada um com seus problemas, não é mesmo.
Abraço
Fevereiro 23rd, 2008 at 8:24 pm
Primeiro, falei que não vi o filme, me chamou a atenção a “manchete” do site. Segundo, a base do capitalismo é o trabalho(o lucro é consequência), e o meu trabalho não tira nada da outra pessoa, minha produção satisfaz meus desejos, e se eu produzo em excesso, eu escolho o que fazer com esse exceso, que pode ser doado :e assim nasce a caridade- e somente assim ela pode ser chamada de virtude pois compreende você produziu e você escolheu doar seu suor aos outros. Não tirou de ninguém, não pediu para ninguém, não dependeu de ninguém para isso.
Terceiro, o que você chama do “nós” que importa para os marginalizados que ele conhece: relações de amizade incondicionais e de doação ao próximo- também nascem de escolhas do eu. Um personagem que larga a família e ,pelo seu comentário, encontra pessoas a quem ele considera amigas por não se importarem com dinheiro e sim com os outros fez antes de tudo uma escolha pessoal, egoísta.
Se você escreve para eu ler, porque não posso fazer observações?-eu disse que não eram sobre o filme, mas sobre a idéia da resenha. Gratuita é a sua ligação do capitalismo com o “mal”. E graças a Deus, cada um com seus problemas… senão a gente ia ter que estar servindo sopa lá na Sé agora a noite, não é mesmo?
Fevereiro 23rd, 2008 at 9:12 pm
Querida, você tem todo o direito de observar, é por isso que existe a caixa abaixo que você usou, e por isso eu respondi. Se não fosse uma observação válida, eu nem responderia. Porém, a idéia do texto parte da idéia do filme, então já partimos de uma discussão que não está em pé de igualdade, pois você não viu o filme. E temos pontos de vista totalmente diferentes em relação ao capitalismo, não tem jeito. Se você ocupa um cargo na engrenagem, você está ocupando um espaço que poderia ser de outra pessoa, e isso já a faz responsável por muitas coisas. Caridade é uma palavra bonita, mas demode, não? Se houvesse caridade tanto quanto há a produção em excesso, o mundo estaria muito melhor, e sinceramente não acho que o mundo esteja tão melhor do que dez anos atrás. Concordo com a sua visão sobre o egoismo do personagem (e isso influencia todo o desenrolar da trama, e o trágico final). De resto, o “cada um com seus problemas” é a vitória do eu sobre nós. Durmamos tranquilos.
Março 5th, 2008 at 4:05 pm
Alguém poderia me informar onde assisto este filme aqui em sp??
Brigadúúúú
Março 5th, 2008 at 4:08 pm
Thaty, até a quinta-feira está em cartaz nestas duas salas:
Cine Bombril 2 - 14h30, 19h e 21h30
Frei Caneca Unibanco Arteplex 8 - 14h e 16h30.
Julho 28th, 2008 at 4:30 pm
Obrigado Mac!