Björk brilha no fraco Tim Festival SP 2007

Quando surgiu, ainda como Free Jazz, o Tim Festival conseguia aliar novidades musicais com a apresentação de grandes nomes da música mundial. Aos poucos, o festival que era apontado como melhor do país por muitos críticos cresceu de tamanho, mas a qualidade da produção intimista e bacana das edições menores não acompanhou (em São Paulo) seu crescimento, e assistiu duas edições frustrantes em 2005 e 2006 (a primeira com nítidos problemas de som; a segunda transferida da Arena do Anhembi e encaixotada no Tom Brasil na última hora).

A notícia do retorno para a Arena do Anhembi neste ano foi recebida com frieza, mas a expectativa era de que a produção do festival tivesse aprendido com os dois anos anteriores, quando o Tim saltou dos palcos pequeninos, aconchegantes e de som excelente do Jóquei Clube de São Paulo para o palco enorme da Arena do Anhembi. A rigor, os problemas de som foram sanados, mas muitos outros surgiram em seu encalço como a superlotação da área VIP (em si, uma agressão a grande maioria do público, que foi “obrigado” a assistir aos shows de uma distância muito maior do palco).

A desorganização dos poucos caixas disponibilizados para atender a mais de 20 mil pessoas (além de desinformados – não sabiam explicar em que lugar a pessoa deveria retirar o que comprou – eles tinham que lidar com uma estrutura precária cujo maior exemplo reside no fato do comprador ter que falar sua senha de cartão de débito para a vendedora, já que não havia como ela passar a máquina de cartão por baixo da grade de atendimento), os banheiros que deveriam receber limpeza constante (o que não aconteceu) e a longa espera entre um show e outro – que culminou num atraso total de três horas e levou o último show a terminar pós 5 da manhã – são sintomas de um festival que cresceu em público, mas não em qualidade.

Um pouco antes das 4 da manhã, no serviço de recados que aparecia no telão do palco, alguém do público brincava: “Eu tenho uma vida fora daqui”. A produção se esqueceu disso. Fora a lista de problemas, o line-up deste ano se mostrou confuso e de qualidade questionável. Se nenhuma das seis atrações fez um show ruim, também nenhuma impressionou mais do que o esperado. Faltou “show” no sentido estrito da palavra em um festival antes caracterizado por apresentações antológicas e line-ups atenciosos com o que de melhor estava se fazendo em música no mundo. Se o que se viu na Arena do Anhembi é o melhor da música neste momento da história estamos, definitivamente, órfãos. E viva a diluição. E salve Björk.

O Hot Chip entrou no palco às 20h depois que integrantes do Spank Rock fizeram até stage dive para animar o público. Ao vivo, o electro rock do Hot Chip cresce em impacto, mas perde em detalhes e nuances. O quinteto tem carisma, conta com um sósia do Vinny se alternando entre guitarras e teclados, um gordinho com uma camiseta do Flaming Lips fazendo efeitos e vozes, e um outro rapaz com cara de nerd no comando da bagunça, mas o show parece que vai virar algo, parece que vai virar algo, parece… e fica nisso. Com exceção, claro, do hit “Over and Over”, cantado em coro pelo público. Pouco para um show em que até uma cover do New Order (”Temptation”) passa totalmente despercebida.

Uma hora de intervalo foi o tempo que Björk precisou para encher seu palco de bandeirolas coloridas de temática animal (sapos, coelhos, peixes) e um naipe islandês de sopro. A demora, no entanto, foi compensada por uma apresentação irrepreensível. Dançando sem parar, a cantora apresentou seu caleidoscópio musical esquizofrênico em forma de música pop centrando foco em um repertório quase best of: “Hunter”, “Pagan Poetry”, “Jóga”, “Army of Me”, “Hyper-Ballad”, “Pluto”, entre outras, animaram o público. De vestido colorido e repetindo “obrigato” a cada final de canção com seu sotaque delicado e charmoso, Björk cativou a audiência e fez um grande show. Só faltou “It’s Oh So Quiet”…

Mais de uma hora de espera e surge Juliette Lewis and The Licks para uma apresentação de rock’n’roll, baby. Porém, por mais que a cantora atriz se esforce, e sua banda tente acompanhar, o show é uma caricatura dos cacoetes mais engraçados do rock: a vocalista que rola no chão dando sangue pela banda, o guitarrista bonitinho que faz pose de homem mau; as canções sustentadas por riffs atolados em barris de formol. É tudo bonitinho, engraçado, divertido, mas a gente esquece assim que ela deixa o palco. E não vai se lembrar tão cedo.

Hype dos últimos dois anos na Inglaterra, o Arctic Monkeys chegou a São Paulo com a grande vantagem de estar em seu melhor momento: lançaram este ano um segundo álbum tão bom quanto o primeiro, e são novidade fresquinha no movimentado mundo pop. Porém, o que é a grande vantagem da banda (ser nova, ter apenas dois discos, e já estar tocando no Brasil) também funciona contra: falta punch de palco ao quarteto, que não se mexe, não inspira, não comove, a não ser nos poderosos e ultra-pesados hits do primeiro álbum. Aliás, as canções do primeiro álbum soam muito melhores ao vivo do que as do segundo (exemplo: “Fake Tales of San Francisco” ficou arrasadora enquanto a ótima “Teddy Picker” parecia um rascunho). Mesmo assim, ouvir “I Bet That You Look Good On The Dancefloor”, um pretendente a clássico dos anos 00, é de encher os olhos e arrepiar a alma.

Antes mesmo de começar o show, o Killers já rendia comentários divertidos via SMS no telão: “Feliz Natal, por The Killers”, mandou alguém do público, visivelmente inspirado pela overdose de luzes da decoração do palco inspirada em um casino de Las Vegas. Se o Capitão Nascimento estivesse por ali teria dito: “O senhor é um fanfarrão, Sr. Brandon Flowers”. Com toda razão. O Killers regurgita – sem medo nenhum de ser feliz – o lado brega dos anos 80 com tudo o que tem direito. E dá-lhe ramalhetes de flores na bateria, que o vocalista vai atirar ao público – no melhor estilo Roberto Carlos – no meio do show. E dá-lhe mão no coração no meio da música, punho fechado quanto um trecho da letra fala de ciúmes, e por ai vai. Apesar da demora na montagem do palco, durante as primeiras músicas ajudantes ainda levavam plantas para dentro do cenário. A pergunta final era: “Que horas o Papai Noel irá chegar em “Sam’s Town”?

Se não há a mínima chance de levar o Killers a sério por seu visual e messianismo, a seu favor o fanfarrão Brandon Flowers tem um repertório de hits debaixo da manga de causar inveja em muita gente: “When You Were Young”, “Somebody Told Me”, “Smile Like You Mean It”, “Jenny Was A Friend of Mine”, “Mr. Brightside”, “Bones” e “For Reasons Unknown” são capazes de chacoalhar uma multidão mesmo que o show esteja acontecendo às 5 da manhã de uma segunda-feira em uma megalópole que acorda cedo no começo da semana. Só o Killers tem mais hits que todo o novo rock junto. Com esse fato, tirando a versão fraquíssima de “Shadowplay”, do Joy Division, o show foi correto e não desandou. Deixo a Arena do Anhembi quatro músicas antes do final pensando na frase do Capitão Nascimento e na promessa não concretizada da visita de Papai Noel. Da rua ainda consigo ouvir Brandon Flowers cantando. Rio. Se o intuito de um show é – entre outras coisas – divertir e entreter o espectador, o Killers deixa São Paulo com a dívida paga. Tudo bem, o preço não era alto, não é mesmo Sr. Fanfarrão?

O saldo final do festival é fraco, um tanto pela desorganização, outro tanto pelo line-up fraco que talvez seja um reflexo do cenário atual da música pop, muito mais preocupado em diluir velhas fórmulas do que criar outras novas. Por mais que o Killers tenha feito um show competente, sua escalação soa deslocada da proposta que o Tim Festival ostentava anos atrás. Brandon Flowers e cia mereciam um show só deles em um Credicard Hall ao invés de surgir como banda principal de um festival que se caracterizava por destacar novas tendências de uma música sem fronteiras. Pelo panorama exibido na Arena do Anhembi, no domingo, as fronteiras não andam sendo bem exploradas. Uma pena.

Texto: Marcelo Costa / Fotos: Liliane Callegari

11 Responses to “Björk brilha no fraco Tim Festival SP 2007”

  1. João Says:

    Explique melhor essas “fronteiras”. Vlw!!!

  2. Cadu Says:

    “Se o intuito de um show é – entre outras coisas – divertir o espectador, o Killers deixa São Paulo com a dívida paga. Tudo bem, o preço não era alto, não é mesmo Sr. Fanfarrão?”

    Como assim??? Não sei pra você, mas pra mim R$ 200 para um festival com tantos problemas é muita coisa. O Killers (e todas as outras bandas) tinha a obrigação de fazer um show, no mínimo, memorável.

    Em relação à sua tese sobre o Tim Festival ter perdido um pouco a sua característica original, acho que você tem ra’zão… em partes. Porém, (sem querer dar uma de advogado do diabo, mas já sendo…) é preciso lembrar que - apesar de muitas vezes as atrações estarem abaixo do esperado - se não fosse pelo festival, provavelmente, não teriamos a chance de ver tantos artistas teoricamente no auge de suas carreiras ou então aqueles que apesar de já estarem consolidados nunca tinham tocado por aqui. Basta ver os artistas que vieram pra cá desde que o festival mudou de nome (PJ Harvey, Wilco, White Stripes, Strokes, Kraftwerk etc e etc…). Em termos de estar ligado com o que acontece no “primeiro mundo”, eu tiro o chapéu para o Tim. Além do mais, só saberíamos se um artista é bom no palco se tivermos a oportunidade de vê-los ao vivo. Aposto que se os shows tivessem sido um pouquinho melhor, não estariamos aqui discutindo isso.

    É claro que existem os pontos negativos (preço, descaso com artistas nacionais etc…) mas no fim acho que o saldo é positivo.

    Abraço.

  3. Mac Says:

    João, essas fronteiras ae são algo que o Tim sempre vendeu como marketing para poder trazer gente que não é mega (como o Killers hoje em dia), mas tem qualidade. É tipo um slogan “música boa em qualquer lugar”. Por exemplo, ninguém vai trazer o Beirut prum show no Brasil, mas o Tim traria. Já o Killers qualquer festival poderia ter trazido. O Tim poderia ter usado essa grana e investido em outros shows bacanas.

    E Cadu, o preço ali tem relação com a expectativa em torno da banda. Como o festival foi mediano, um show mediano do Killers já estava de bom tamanho. Ou seja, a dívida que eles teriam de fazer um grande show foi paga com um bom show, e nem precisava tanto para uma noite sem surpresas.

    Quanto a caracteristica original do Tim Festival, é sobre isso mesmo que você comentou que estou falando. Como respondi pro João, eles tem que usar a grana com bandas que não viriam ao Brasil sozinhas. Todas as citadas, quando vieram, vieram para o Tim, e isso é um grande mérito do evento. O problema é que, compatado aos anos anteriores, o line-up deste ano deixou muito a desejar. E mesmo sendo legal ver Arctic Monkeys e, zuzu bem, Killers, é preciso analisar a representividade disso em relação aos anos anteriores. E é ai que o lance desanda, pois nos anos anteriores tivemos muita gente legal.

    Abraço

  4. James Says:

    Marcelo, não fui ao Tim deste ano por problemas de saúde e porque me desinteressei mesmo. Lendo a sua crítica me fez ver que tomei a decisão correta. Não há atração no mundo que possa passar por cima de algo primordial num evento: o respeito ao público. É muito triste ver que o Tim, que um dia já foi o festival mais gostoso para se estar, chegou a isto. Uma pena.

  5. Fábio Says:

    Boas observações. Para mim, o Hot Chip foi uma grata surpresa. Eu não esperava nada de uma banda que eu nem conhecia, ainda mais depois de ter visto a merda do Spank Rock. Mas como queria ver a Bjork mais de perto, fiquei ali no meio da muvuca durante o show do Hot Chip e gostei deles e da dancinha do nerd. [hahaha] O guitarrista que você comparou com o Vinny, me lembrava [fisicamente falando, que fique claro. hehe] o guitarrista do Wilco, e o gordinho, o Jack Black. E acho que fazendo estas comparações, eu curti mais o show. [hehehe]

    Voltei podre prá Limeira, mas valeu, eu gostei dos shows em geral, só odiei o preço abusivo das bebidas e comidas lá. Da próxima vez queria ver se rolava não ver a primeira banda e ter minha parte em cervejas. :-)

  6. Adriana Nagano Says:

    Hey, Mac querido.
    Belo post. Resumiu bem o que foi a noite paulistana do evento. Apesar de não conhecer os primórdios do evento, tenho conhecimento de causa dos três últimos Tins e vejo que se ele perdeu em peso (grandes nomes), ganhou em divulgação. É bonito ver a gurizada se empolgando com rock. Sei lá, coisa de gente velha mesmo.
    Ver Björk ao vivo, dançar ao som de Hot Chip, desdenhar dos macaquitos do ártico e me desmanchar ao som de All these things that I’ve done - compensou tudo, tudo mesmo. Falta de organização do evento, falta de bebida e comida, preços para lá de abusivos, ser esmagada na grade, atraso de três horas.
    Sai de lá com a alma lavada e com a sensação de dever cumprido.
    De ambas as partes, saca?
    Só acho que eles poderiam ter trocado Uncle John por sei lá, Indie Rock’n'roll, risos.
    Que acha? Afinal, indie rock’n'roll is all I need…

  7. Drex Says:

    E aí Mac!

    Estive lá também, affff… O que a gente não faz por esse tal de roquenrol, não é mesmo?

    Cara, acho que o problema é muito mais de organização (e dessa nossa conjuntura de naçãozinha mequetrefe de terceiro mundo) do que de escolha do line-up.

    O que houve em São Paulo nos últimos três anos não foi aquilo que conhecíamos por Free-Tim Festival. É um arremedo, uma improvisação, um golpe baixo dos produtores pra arrecadarem um baita dinheiro em cima da nossa carência por shows. O que nós conhecíamos (e ainda criamos expectativas) por Tim Festival é aquilo que vc bem descreveu, aquela atmosfera bacana e confortável do Jóquei, do MAM no Rio, talvez a mesma que tenha havido este ano lá na Marina da Glória (que infelizmente ainda não pude conhecer…).

    Isto que houve ontem é apenas uma lambuja para os paulistas, enfim. Um estelionato, é claro, pois o preço não é nada de lambuja. É certamente um tapa na cara vergonhoso desses malditos produtores me cobrarem 200 pilas (quase 140 dólares, enfim) e me colocarem naquela joça do Anhembi, com água e cerveja esgotadas, e me manterem lá até as 5 da manhã de uma segunda-feira. Cara, eu tenho 31 anos, tenho que abrir a lojinha às 8:00 e não tenho mais saúde pra essas maratonas…

    Os shows foram ótimos (tirando a bandinha amadora da Juliette…). Mas, mesmo amando as apresentações dos Monkeys e do Killers, saí dali com uma baita raiva desse tal festival que um dia já foi bem bacana.

    Um abraço meu caro,

    Drex

    PS: Ah, tive amigos que conseguiram entrar na área VIP sem ingresso. Pudera estar tão lotada…

  8. pree Says:

    fiquei tão aborrecida com o tim que deu até preguiça de explicar os porquês.
    vou pedir pra lerem isso aqui pq vc disse tudo: da falta de organização para comprar comida, ao absurdo de uma bjork nada simples tocando entre hot chip e julliette lewis…é tipo, que?

    e eu que me abalei pq queria dançar todos os hits do killers, tbm tive de deixar o lugar com o fanfarrão no palco. uma pena. saudade do último bom tim festival, aquele de 2004, qnd pj harvey ficou encantada.

  9. Maria Cecília Says:

    eu não concordo com praticamente nada que essa crítica disse. só isso. pronto.

  10. Rodrigo Bap Says:

    Eu sou do Rio, e por motivos óbvios, assisti o Tim por aqui. Na Marina da Glória rolaram alguns problemas também. O evento foi organizado através da separação de artistas por palcos, de acordo com a procura e, em alguns casos, conforme a “linha musical”. Aconteceram alguns atrasos e problemas de som no palco que tinha as “divas” Cat Power e companhia. Além disso, a fila para o show do Arctic Monkeys junto com Hot Chip era gigantesca. Isso porque no memso palco, se apresentou Bjork, mas quem comprou o ingresso pra um, teria que gastar mais uma grana para assistir o outro. Meio “nonsense”. Os atrasos aconteceram, mas nada de anormal. Nenhum atraso gritante.

  11. Jamile Tessarim Says:

    AHH concordo PLENAMENTEEE com oq esta escrito, foi meu primeiro show GRANDE, e me desapontei MESMO MESMO, com a demora, e desorganização… os intervalos dos show demoraram demais, sem contar que a area vip era MTO grande, e o publico maior via tudo de MTOO longe, achei pessimo isso, deveriam ter coloca a area vip do lado, mas aonde todos pudecem ver o show de perto.. e sobre a comida tbm concordoo nada organizado; o show que mais gostei foi do the killers eles arrazaram, mas eu ja estava morta de canseira de ficar de pé lá ;//

    Bjos ;*

Leave a Reply