Cenas da vida em São Paulo, Parte 3

Sexta-feira, pouco mais de sete da noite, escuridão. O cara sai do trabalho cansado pela semana intensa, mas feliz pelo sábado e domingo pela frente. Segue pela Rua Amauri atolada de carros importados, atravessa a movimentada Av. 9 de Julho, e quando está no meio do canteiro, no cruzamento com a Av. Europa, é abordado por um ambulante. De bermuda (apesar do vento frio), camiseta rasgada e pacotes de balas que ele procura vender para os passageiros dos carros parados no sinal vermelho, o ambulante todo animado puxa papo:

- Cara, eu adoro esse cara ae – diz ele apontando para a camiseta do rapaz.

O rapaz, sem entender muito o que está acontecendo, pensa que ele deve ter confundido a pessoa desenhada na camiseta, mas o ambulante continua:

- Os filmes dele são muuuuuito doidos. Me amarro.

- Eu gosto muito – responde assustado o rapaz; está escuro no cruzamento da duas grandes avenidas, mas o papo começa a ficar interessante.

- Onde você comprou essa camiseta?

- Ganhei da minha namorada…

- É lindona, viu. Esse cara é bão.

- É mesmo – responde o rapaz, e emenda – mas nem todo mundo gosta dos filmes dele…

- Eu me amarro. São doidos pra caralho. E os livros também são muito bons!

Nesta hora, o rapaz trabalhador quase tem uma sincope. “Como assim, os livros dele? O cara leu os livros dele que eu mesmo não li?”, pensa, sem humildade. Consegue apenas responder, no momento em que o sinal verde passa para o amarelo antes de se transformar em vermelho:

- Os livros eu ainda não li!

- Pô, você passa sempre aqui? Olha, na segunda eu não vou vir, mas qualquer coisa, passa aqui na terça que eu te empresto. Eu tenho os três!

O rapaz atravessa a rua totalmente sem entender os dois minutos que se passaram passos atrás. Agradece o ambulante e não diz se vai passar na terça para pegar o livro; sorri desajeitado e caminha sobre a faixa de pedestres enquanto o ambulante, também sorrindo, leva seus pacotes de balas para os carros que estão parados no sinal.

- Valeu pelo papo, abraço! – diz o rapaz quando está chegando ao outro lado da calçada. O ambulante é todo sorrisos. Elogia novamente a camiseta antes de se perder em meio aos automóveis…

************

Em homenagem a cena acima assisti, neste sábado, “A Última Noite de Boris Grushenko” (“Love and Death”, 1975), comédia menor – mas muito divertida – do diretor citado. O filme conta a história de Boris, um russo que, na véspera de ser executado por soldados franceses por um assassinato que não cometeu, recorda toda a sua vida desde criança até o momento derradeiro. Neste emaranhado de lembranças, citações de filósofos, inserção de personagens de Dostoievski na trama, a descoberta de que não existem garotas na vida após a morte, e teorizações sobre o amor, o sofrimento e a morte, ao menos um momento antológico: Boris dançando com a morte, reeditando a descoberta clássica de seu diretor favorito, Ingmar Bergman, cujo personagem desafiou a morte para uma partida de xadrez, mas descobriu que não se pode confiar no anjo vestido de preto.

7 Responses to “Cenas da vida em São Paulo, Parte 3”

  1. alexandre Says:

    marcelo, meu velho, soube do movimento de arte periférica ou algo que o valha, que é uma releitura da semana de arte de 1922? nem eu. li sobre numa edição da revista época e tem um pouco a ver com o seu relato. só vemos a ponta do iceberg, achamos que cultura beira a paulista e seus entornos e esquecemos do que rola nas praças mais distantes.
    veja se consegue mais informações sobre esse evento.

    e o show do terminal guadalupe no festival garimpo foi excelente.

    grande abraço.
    hasta.

  2. Jonas Says:

    No único cinema “de arte” de Florianópolis tem um flanelinha que vê os filmes estrangeiros e debate com a gente. “Pô, tu gostou daquele Godard? Achei uma merda!”.

  3. Kauê Klomfahs Says:

    ??????????

    http://www.inrainbows.com/Store/Quickindex2.html

  4. Maikol Says:

    e ai Marcelo blz???
    Queria agradecer por você considerar a entrevista ao PopIndie, uma das cinco melhores nos últimos cinco anos. Só li hoje o post porque tô de férias, daí atrasou tudo…vlw mesmo, abraços!!!

  5. JW Says:

    esse é o tipo de coisa que faz os dias valerem a pena!

  6. ana alice Says:

    e eu que achava o máximo ter flagrado uma mendiga lendo “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, do Kardec…

  7. Daia Says:

    Mac, tenho uma camiseta igual a sua!

Leave a Reply