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Posts from — setembro 2007

Cenas da vida em São Paulo: Woody

 

woody_camiseta

Sexta-feira, pouco mais de sete da noite, escuridão. O cara sai do trabalho cansado pela semana intensa, mas feliz pelo sábado e domingo pela frente. Segue pela Rua Amauri atolada de carros importados, atravessa a movimentada Av. 9 de Julho, e quando está no meio do canteiro, no cruzamento com a Av. Europa, é abordado por um ambulante. De bermuda (apesar do vento frio), camiseta rasgada e pacotes de balas que ele procura vender para os passageiros dos carros parados no sinal vermelho, o ambulante todo animado puxa papo:

– Cara, eu adoro esse cara ae – diz ele apontando para a camiseta do rapaz.

O rapaz, sem entender muito o que está acontecendo, pensa que ele deve ter confundido a pessoa desenhada na camiseta, mas o ambulante continua:

– Os filmes dele são muuuuuito doidos. Me amarro.

– Eu gosto muito – responde assustado o rapaz; está escuro no cruzamento da duas grandes avenidas, mas o papo começa a ficar interessante.

– Onde você comprou essa camiseta?

– Ganhei da minha namorada…

– É lindona, viu. Esse cara é bão.

– É mesmo – responde o rapaz, e emenda – mas nem todo mundo gosta dos filmes dele…

– Eu me amarro. São doidos pra caralho. E os livros também são muito bons!

Nesta hora, o rapaz trabalhador quase tem uma sincope. “Como assim, os livros dele? O cara leu os livros dele que eu mesmo não li?”, pensa, sem humildade. Consegue apenas responder, no momento em que o sinal verde passa para o amarelo antes de se transformar em vermelho:

– Os livros eu ainda não li!

– Pô, você passa sempre aqui? Olha, na segunda eu não vou vir, mas qualquer coisa, passa aqui na terça que eu te empresto. Eu tenho os três!

O rapaz atravessa a rua totalmente sem entender os dois minutos que se passaram passos atrás. Agradece o ambulante e não diz se vai passar na terça para pegar o livro; sorri desajeitado e caminha sobre a faixa de pedestres enquanto o ambulante, também sorrindo, leva seus pacotes de balas para os carros que estão parados no sinal.

– Valeu pelo papo, abraço! – diz o rapaz quando está chegando ao outro lado da calçada. O ambulante é todo sorrisos. Elogia novamente a camiseta antes de se perder em meio aos automóveis…

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Em homenagem a cena acima assisti, neste sábado, “A Última Noite de Boris Grushenko” (“Love and Death”, 1975), comédia menor – mas muito divertida – do diretor citado. O filme conta a história de Boris, um russo que, na véspera de ser executado por soldados franceses por um assassinato que não cometeu, recorda toda a sua vida desde criança até o momento derradeiro. Neste emaranhado de lembranças, citações de filósofos, inserção de personagens de Dostoiévski na trama, a descoberta de que não existem garotas na vida após a morte, e teorizações sobre o amor, o sofrimento e a morte, ao menos um momento antológico: Boris dançando com a morte, reeditando a descoberta clássica de seu diretor favorito, Ingmar Bergman, cujo personagem desafiou a morte para uma partida de xadrez, mas descobriu que não se pode confiar no anjo vestido de preto.

setembro 29, 2007   No Comments

O que é a gastrite?

Segundo a Wikipedia, a gastrite é a inflamação da mucosa que reveste internamente o estômago, também conhecida como epitélio estomacal. Os dois tipos mais conhecidos de gastrite são a crônica e a aguda. Eu carrego esta segunda, que aparece quase sempre por estresse, físico ou psíquico. Os sintomas são perda de apetite, azia, dor e queimação no abdômen. Essa tal queimação parece uma estática de rádio em tom beeem baixo que fica zunindo no lado esquerdo da barriga (no meu caso, desde os 21 anos).

Bem, tudo isso é meio blá blá blá, né. Fica mais fácil assim:

Gastrite é o seguinte:

Três amigos saem de um show e planejam a balada. Ela diz que irá beber algo que tem chocolate e Tequila. Um dos meninos diz que irá de Bloody Mary com alguma outra coisa. O terceiro, salivando, abre mão do esquenta e diz que vai direto pra casa, mas que vai pegar uma Xingu para aplacar o desejo.

Isso é gastrite?

Não, caro leitor, quem dera. Gastrite é, na última hora, você trocar a cerveja por suco de maracujá…

Ps. esse post é em homenagem a minha 10ª endoscopia (em 17 anos), a ser feita nesta terça… 🙂

setembro 24, 2007   No Comments

Entrevista ao Pop Indie

Entrevista concedida a Maikol Paolo Vancine (agosto de 2006)

Hoje estréia a série de entrevistas (tomara que realmente vire uma série), feitas por e-mail, com poucas e simples perguntas, até porque não tenho prática nisso, pra matar a curiosidade, e saber mais um pouco sobre grandes pessoas que se movimentam para trazer um pouco de diversão e cultura para nós, apaixonados. E hoje, mais do que merecido, o primeiro convidado foi o jornalista Marcelo Costa, editor do site Scream & Yell, e um grande apaixonado pela cultura pop.

Marcelo também é editor de homes do iG, BRTurbo, iBest, e escreve para as revistas Rock Press, Rock Life, Pipoca Moderna, e estreou na semana passada sua coluna no iG chamada Revoluttion. Marcelo fala aqui sob sua estréia, um pouco da sua vida, seus pensamentos, etc.

Quem te conhece sabe da sua paixão pela cultura pop, você acha que é possível viver fazendo somente tudo aquilo que você gosta, desde trabalho até estilo de vida? E no seu caso em especial você se sente realizado, e acredita que ainda hoje é possível viver de cultura pop?

Possível é, mas é bem difícil também. Eu gostaria muito de poder viver só de cultura pop, do site que eu edito, dos textos que escrevo para algumas revistas, mas isso ainda é impossível. O meu trabalho no iG, por exemplo, nada têm de cultura pop. E é este trabalho que possibilita que eu pague as contas, me alimente, ou seja, viva a vida normalmente. Viver só de cultura pop não daria, mas não é impossível. É preciso, talvez, um tato maior para negócios, para fazer o dinheiro render. Particularmente tenho medo de dizer que me sinto realizado, sabe. Eu tenho 36 anos, só (risos). Se me sentir realizado agora, o que é que vou fazer com os outros 54 que ainda pretendo viver? Ficar vendo a vida passar é que não dá. Poderia dizer que me sinto orgulhoso com as conquistas, mas ainda falta muita coisa para se conquistar e viver. É só sair pra rua e dar uma boa olhada ao seu lado. O mundo precisa melhorar muito, e isso faz parte de se sentir realizado, sabe: desejar o bem estar de todos. Não dá para se sentir o cara mais bacana do mundo com tanta desgraça por ai. Seria muito “umbiguismo”.

E para quem está iniciando, principalmente na área jornalística, ainda existem chances de ter toda a carreira voltada para essa área, já que toda a “magia” de publicações impressas de fanzines, jornais e revistas especializadas de décadas passadas, se perdeu um pouco, principalmente pelo surgimento da internet e as facilidades que ela proporciona?

As chances sempre existiram e sempre vão existir. Apesar das facilidades da Internet, acho que fazer fanzines em papel deve ser muito mais sedutor e mágico hoje em dia do que um dia foi. Eu ainda quero fazer umas edições do Scream em papel novamente, mas seria voltar estágios, já que comecei a me envolver com revistas, e você acaba enxergando a coisa como um todo. Acaba sendo mais exigente, mesmo sendo um fanzine. No entanto, com tantos sites surgindo por ai, o fanzine em papel é um diferencial que deve ser explorado.

O Scream & Yell surgiu como um fanzine, e durou pouco tempo, houve uma necessidade de se digitalizar, ou foram outros os motivos?

Foram acasos, apenas isso. Eu editava ele (o fanzine de papel) inteiro no pagemaker, sozinho. E continuaria editando, mas um amigo se empolgou com o fanzine em papel, e me “deu” um site. Ele fez tudo. E depois teve a Zero, que foi um projeto que nasceu dentro do S&Y. Ou seja: era um fanzine, virou site, e dali surgiu uma revista. São passos naturais.

Cultura é coisa de rico?

De maneira alguma. Eu, por exemplo, não sou rico. Com muito jeito dá até para dizer que sou classe média, média mesmo (e baixa records, como escreveu o Mini na letra da música do Walverdes). Passei em um concurso para trabalhar na faculdade, e ganhei uma bolsa de 50% para cursar Comunicação Social. Isso me permitiu ter um diploma de bacharel. Nunca cheguei a prestar Federal, mas acho que eu nunca iria passar. Faltou base no colégio. Mesmo assim, era rato de biblioteca e lia tudo que pintava pela frente. Ou seja, a cultura está na própria pessoa. Na vontade dela conhecer mais coisas. Tem gente que tem dinheiro e prefere gastar com iates, helicópteros, jatinhos e coisas e tal. Tem gente que não tem e prefere comprar CDs, filmes e livros. O dinheiro não serve como paralelo. A cultura está na própria pessoa.

Política e futebol te interessam, ou você foge do comum?

Política deveria interessar a todos, mas as desilusões foram me colocando mais distante. Assim como vários amigos, pela primeira vez estou pensando seriamente em votar nulo. Havia uma meta sonhada, e essa meta foi conseguida, mas não mudou nada. Então acho que precisamos de medidas sérias para mostrar aos governantes que estamos infelizes. O voto nulo é uma destas medidas. Já o futebol… eu era completamente fanático, corintiano roxo e tal. Mas depois de um certo dia (uma oitavas de final da Libertadores com o Palmeiras), nunca mais fui o mesmo. E, cada dia que passa, perco mais e mais o prazer em assistir e acompanhar os jogos. Hoje em dia o futebol me interessa com os amigos…

 

Você se sente indo contra a corrente, como você disse na Revoluttion em relação aos nomes de suas colunas (Revoluttion, Calmantes com Champagne, L’âge D’or)?

Na maioria do tempo, mas existem coisas que me surpreendem. Às vezes acho que só eu detestei uma coisa, e quando comento vejo que mais pessoas achavam aquilo também (como quando critiquei negativamente o “A Ghost Is Born”, do Wilco). Mas também não é uma corrente tão forte assim… (risos).

Em sua página no Orkut você dá a entender que não assisti televisão, ou que não gosta. Chega a ser um “radicalismo”, uma aversão?

Dá a entender isso mesmo? Bem, é só por falta de tempo mesmo. Em São Paulo existem sei lá quantas salas de cinema. Tem shows todo dia. Eu tenho mais de 80 discos novos para ouvir (sem contar os 5 mil da minha estante). Tenho que escrever para alguns lugares, editar o site… e tem os DVDs. A televisão acabou perdendo a sua função para mim, assim como o rádio. Se eu quero ouvir uma música, eu vou e pego o CD na estante. Não preciso ficar procurando ela numa FM. Acho que aconteceu o mesmo com a TV…

Sua coluna, Revoluttion, estreou dia 05 desse mês no iG, além disso você tem outros trabalhos em revistas, além do site. Como você faz para não se tornar repetitivo, e administrar o seu tempo em torno de tantos projetos?

Existem muitas maneiras de se falar a mesma coisa sem se repetir (risos), mas na verdade são coisas diferentes. O blog Calmantes é extremamente pessoal, eu com meu leitor; a coluna Revoluttion será uma coisa mais centrada na informação e na poesia do texto, assim como é a coluna de cinema no site da Rock Press. Cada coisa tem seu foco. E administrar o tempo é sempre um problema. Um dia de 24 horas é muito curto para tanta coisa… Não há uma fórmula. Você vai fazendo e fazendo e fazendo.

E quais são suas expectativas diante dessa nova empreitada?

Acho que é um espaço bacana, num lugar bacana, com uma exposição ótima. Tem tudo para render.

Pra finalizar: Morrissey é o maior inglês vivo da história, e Chico Buarque o melhor letrista do nosso país?

Letrista, sem dúvida. No rock sempre tivemos bons nomes, mas Chico é imbatível. Só não sei se ele é o maior brasileiro vivo. Tem vários nomes para essa lista…

setembro 18, 2007   No Comments

Entrevista ao Yer Blues

Entrevista concedida a Jonas Lopes (07/2004), do Yer Blues

Para aqueles que gostam de ler e-zines, provavelmente nunca haverá tão cedo um período fértil como o de 2001/2002, quando ótimos sites como o Scream & Yell e o Quadradinho nos ajudavam a entender um pouco mais esse bicho tão abrangente quanto pouco compreendido chamado cultura pop.

Claro que hoje há alguns zines de alto nível, e isso só comprova a minha teoria, pois várias das pessoas que escrevem neles eram leitores ou escreviam para o S&Y nesta época áurea. Liderado e idealizado por Marcelo Costa, o Scream & Yell impressionava pela qualidade e produtividade – tinha texto novo praticamente todo dia, graças ao batalhão de colaboradores do site.

No fim de 2002, Marcelo anunciou o fim do zine, para surpresa dos leitores. A comoção foi geral. Mac ensaiou uma volta no ano passado, que durou alguns meses, mas não vingou completamente. Hoje ele mantém um blog na página principal do S&Y. Nesta entrevista ele conta algumas histórias curiosas da trajetória do zine e até vislumbra uma possível volta, entre outras coisas interessantes. Vamos torcer.

Uma pergunta vaga e bem pessoal: pra você, o que é cultura pop e que importância devemos atribuir a ela?

Putz, pegou pesado para começar, hein (risos)? Bem, entendo cultura pop como um braço mais deslocado da cultura, um caminho mais leve, desencanado e que permite muito mais maneirismos do que a cultura sedimentada. Vai desde gibis, revistinhas Tex (Sabrina e Julia também), passa por discos e chega ao cinema. É tudo de uma leveza e uma urgência que demarcam muito o tempo que vivemos. Fico cá imaginando a atemporalidade dessa cultura, mas se um livro do Marcelo Paiva de 1982 ou um disco dos Beatles de 1967 continuam atuais, acho que não temos muito com o que nos preocuparmos, né? Quanto à importância, putz, vai da vida de cada um. Conheço muita gente que não sabe nada de Belle & Sebastian, nunca passou perto de um livro de Salman Rushdie e deve achar que Matrix é um xingamento, e essas pessoas são felizes. Cada um tem que se satisfazer e descobrir o que pode retirar de bom da vida. Na verdade, e chulamente falando, cultura pop se assemelha ao futebol. De que adianta ficar se remoendo, torcendo, brigando por 22 homens peludos correndo atrás de uma bola e que ganham em um mês a grana que eu deverei juntar trabalhando a vida toda? Adianta porque é passatempo, é diversão, é emoção. Faz a vida valer a pena, faz o mundo pessoal de cada um ter sentido. A importância cada um dá.

Como e quando surgiu a idéia do Scream & Yell?

Foi um tremendo acaso. Eu sempre fui bicho do mato. Tinha centenas de vinis e passei a adolescência toda lendo, ouvindo música e jogando jogo de botão, sempre sozinho, muito pelo fato da minha família se mudar constantemente, o que me atrapalhava em fazer novas amizades. Isso tudo para dizer que quando o Scream & Yell surgiu eu tinha noção quase zero do que era um fanzine. Mas eu gostava de escrever, era metido a enciclopédia de música, tinha uma coleção invejável de vinis e muitas pessoas próximas freqüentavam a minha casa ou para ouvir um som ou para gravar fitas. Na época, eu estava cursando o segundo ano de publicidade e propaganda na Universidade de Taubaté, local onde eu trabalhava também (era auxiliar de biblioteca na faculdade de Direito de lá). E foi lá que eu conheci o João Marcelo, um cara que amava Metallica e Engenheiros do Hawaii em proporções iguais (risos). Foi ele que em plena tarde de 25 de dezembro de 1996, apareceu na minha casa com a idéia de fazer um fanzine. O pessoal da minha sala da faculdade já tinha feito um, o Gambiarra, bem bacana por sinal, então as idéias brotaram com facilidade. Ali mesmo, ouvindo Smiths, Jesus & Mary Chain e Smashing Pumpkins, rascunhamos o número 1. O problema foi que ambos eram muito perfeccionistas. O João estava aprendendo a mexer em pagemaker e toda vez a gente mudava algo, tinha uma nova idéia, e tudo mudava. Fizemos um zine profissa, com espaços para anunciantes e tudo mais. Outro grande problema é que, já na fase de acabamento, o João se acidentou. Enfiou a moto no meio de uma Brasília amarela e se foi. Fiquei sem chão pela perda do amigo e nem quis mais saber do projeto. Um ano depois o retomei, por uma paixão enlouquecedora pelo álbum Carnaval na Obra, do Mundo Livre. Daí tem um intervalo, né, entre o fanzine sair do papel e virar site. Eu tinha vindo para São Paulo já, e conversava sempre por email com um cara politizado e bem bacana, chamado Hugo. Quando mostrei o Scream & Yell em papel, ele pirou.Tinha planos de fazer um site e fez mesmo. O Scream & Yell que está hoje no ar ainda é o mesmo HTML que o Hugo colocou no HPG em novembro de 2000. Mudei alguns detalhes depois, mas em essência é a mesma coisa.

No zine você já fez coisas como entrevistar o Ian McCulloch, que é um grande ídolo seu. Que outros momentos você destacaria em toda a trajetória do site?

A entrevista com o Lambchop que o Leonardo Vinhas fez, é muito melhor que a publicada em qualquer grande veículo, mesmo. Tem muita coisa no site que bate material publicado na grande mídia, mas eu sempre curti mesmo dar aos colaboradores a oportunidade de falar sem rabo preso. Mas o que mais me emocionou neste tempo foi uma história bem legal. Estava eu bebendo cerveja em um boteco na Augusta com alguns amigos quando me liga uma grande amiga para contar uma novidade: ela estava vendo o DVD do filme Concorrência Desleal e, na parte dos extras, um atalho leva para os comentários da imprensa e tava lá, entre Folha, Veja e Estadão: “Um filme inesquecível” – Marcelo Costa, do Scream & Yell. Foi muito legal ter esse reconhecimento. Meio que mostrou que o site era uma fonte de referência. Mas, sobretudo, acho que o grande momento do site aconteceu quando anunciei seu fim. Não me passava pela cabeça que tanta gente lesse e se importasse com o Scream & Yell. Foram três dias seguidos chorando. Toda hora que eu abria o email tinha uma mensagem linda, emocionada, que me chapava.

O Scream & Yell conta com textos de vários colaboradores. Como você fazia a seleção do que dá pra entrar e o que não dá? Rolava muito de você discordar completamente da opinião de algum colaborador e mesmo assim publicar o texto?

Essa sempre foi a parte mais simples do negócio, e você mesmo pode contar melhor que eu. Na verdade, muita gente tem o S&Y como um grande veículo. É sério. Tem gente que já colocou em currículo! Mas sempre foi simples. A pessoa entra em contato, passa a pauta (na maioria resenhas, pouca gente oferece uma pauta de entrevistas ou de pesquisa, por exemplo) e eu analiso mais o texto e a viabilidade da idéia. Por exemplo, discordo muito tanto do Leonardo Vinhas quanto do Diego Fernandes, mas os textos deles são tão bons que fica impossível não publicar (risos). É básico. Não basta dizer que Radiohead é chato, tem que explicar. Se explicar bem, de maneira convincente, sem ataque gratuito e tal, entra, mesmo comigo amando Radiohead.

Quais eram os pontos fortes e fracos do site? Que outros zines você curte?

O grande destaque do Scream & Yell é poder falar de tudo e todos. Poder ter uma boa entrevista com Renato Teixeira, uma boa entrevista com o Interpol e uma boa entrevista com o Autoramas. É não se prender a nichos. Falar do que der vontade, porque uma pessoa faz um zine para falar do que der vontade, não para ficar atendendo a expectativas alheias. O ponto fraco era a falta de uniformidade nos textos. Adoro o HTML do site, mas ele não funciona em vários aspectos, como busca. Sem contar que, como foi feito tudo no braço, para alterar ou corrigir alguma coisa é um trampo. Quanto aos e-zines, puxa, são tantos que até dá medo de citar e esquecer de algum.

Muito se fala na decadência do jornalismo musical e até cultural no país. As poucas revistas não são tão lidas, a qualidade dos textos vem caindo bastante. De quem é a culpa: leitores que não correm atrás, jornalistas que têm se achado tão importantes quanto os artistas ou editoras que não deixam o produto se firmar? Você enxerga melhoras para o futuro?

Cara, há muito de nostalgia ai, sabe? As coisas não estão tão ruins agora quanto estavam dez anos atrás, ou vinte, ou cinqüenta. Pega um jornal dos anos 60 que você vai encontrar muitos erros também. O que acontece é que, hoje em dia, tudo é mais visível, muito pela internet. E quase todos os bons textos e jornalistas sensacionais que eu admiro nem jornalistas são. Como explicar que os jornalistas que melhor traduzem a música não são jornalistas? Ou seja, vai muito do feeling. Do jeito do cara se expressar. Então, o presente está maravilhoso como sempre esteve. Não é apologia da cegueira. Também tem essa dos jornalistas superstar (risos), mas é a indústria. Cara, como dizia um filme, todo mundo precisa de um guia, “seja ele Buda, Jesus ou Elvis”. Ou Álvaro Pereira Júnior (risos). Cada pessoa tem o guia que merece, pode ter certeza…

Você fazia parte do projeto inicial da Zero e saiu por “diferenças profissionais”. Que diferenças foram essas e o que você acha do rumo que a revista vem tomando?

Primeiro é bom que se esclareça que eu não saí da Zero. Eu fui “saído”. Seria altamente nobre da minha parte dizer que saí por não concordar com diversas coisas da revista e blá blá blá, mas, infelizmente (risos), não foi isso que aconteceu. O que aconteceu é que, no final de 2001, quando o número 0 da Zero estava sendo feito, eu descobri uma série de coisas erradas no que diz respeito a honestidade e idoneidade de uma das pessoas do grupo. E isso, simplesmente, me bloqueou. Aquela época foi a que menos escrevi na vida, por absoluta falta de tesão. Não me via fazendo uma revista que iria contar com matérias duvidosas. O certo, claro, seria reunir o grupo e abrir o jogo. Mas faltou culhão da minha parte em jogar sucrilhos no ventilador. E também da parte deles, afinal, eu era um nome no projeto, participava de reuniões com editoras, mas não estava rendendo como jornalista. Nisso fui me afastando, e eles se unindo. Colaborou para a minha saída o fato de eu assinar um contrato de um ano com o UOL para editar um site parceiro de esportes. Ou seja, eu estava cada vez mais fora da revista, mas só fui saber que estava fora ‘de fato’ quando recebi o release da número 1 e eu não estava lá. Ao contrário de ficar chateado, eu comemorei, afinal, estava livre. No fim, ficou todo mundo em paz, claro, eles por um tempo, como conta a história (hahahaha).

Quanto ao rumo que a revista tomou, isso me dá um alívio. Imagina se eles vão e fazem uma puta revista bacana? Eu ficaria mordido de vontade de estar lá (risos). Mas, como demonstra a história, não foi bem isso que aconteceu. A Zero é uma revista absurdamente sem foco, sem ideologia. Sem rumo musical, político ou social. É claro que tem o seu valor. Se uma pessoa não consegue comprar revistas gringas (Q, Mojo, Uncut, Rolling Stone, etc…), não tem acesso à internet (para se informar em sites de música, e-zines, sites dos próprios artistas, etc…), não consegue acompanhar os cadernos culturais dos principais jornais do país (Caderno 2, Ilustrada, Segundo Caderno, Zero Hora, etc…), uma revista como a Zero terá a sua utilidade. E eu seria altamente maldoso se dissesse que a revista toda é ruim. A coluna do André Fiori é muito boa, a melhor coisa da revista (e nem é por ele ser um grande amigo – risos). E tem gente muito boa que colabora com a revista, como o Jardel Sebba, o Luciano Vianna, o Alex Antunes. Na edição passada, com Caetano e Gil na capa, o resgate daquelas fotos merece aplausos. É claro que, para isso, eles poderiam ter feito um álbum de fotos e não uma revista, mas está valendo. Com certeza deve dar para salvar uns dois ou três textos por edição. E, por mais que isso venha a soar rancoroso, é só uma análise fria e séria da publicação, e só quem me conhece sabe que eu não brincaria com um assunto desses. No mais, o esforço deles em manter a revista nas bancas é louvável. Só é preciso deixar claro que isso não justifica a qualidade questionável da publicação. Interessante é que acho o site deles mais bem definido.

Dizem que os blogs mataram os zines, que por sua vez mataram as revistas. Até que ponto isso é verdade e qual seria o espaço de cada um destes veículos?

Quem está dizendo que os blogs mataram os zines que, por sua vez, mataram as revistas, está completamente enganado. Primeiro: as revistas não morreram. Segundo: os zines não morreram. Terceiro: os blogs são apenas mais uma fonte de informação. Para provar que as revistas não morreram é só pegar a tiragem de uma Caras, de uma Veja, de uma Playboy, de uma SuperInteressante, de uma Vip. O problema não é com o mercado de revistas. O problema é com a indústria musical no Brasil. É esta indústria que dificulta a existência de revistas de MÚSICA, porque é tudo uma engrenagem só.

O Skank está feliz da vida porque vendeu 100 mil cópias do Cosmotron. E eles já venderam 2 milhões de cópias do Calango. O Caetano estava festejando as 50 mil cópias do A Foreign Sound. E ele vendeu 1 milhão de cópias do Prenda Minha – Ao Vivo. Transponha isso para o mercado: imagine uma revista de música para um público que compra 2 milhões de discos e a mesma revista de música para quem compra 100 mil. A distância é enorme. O que significa que a indústria musical brasileira está falida e absurdamente perdida. Como uma revista de música pode ter uma vida saudável em um país que não tem uma vida cultural saudável? Você sempre irá escrever para os mesmos gatos pingados. A indústria musical colocou tudo a perder com preços abusivos, jabás em excesso e nenhuma noção de mercado. As gravadoras são culpadas pela programação ‘flashback’ das rádios. Não há espaço para o novo. E se não há espaço para o novo, como a massa de 170 milhões irá ter acesso ao novo? No Domingão do Faustão que não será. Eu assisti a uma palestra do André Midani no ano passado e ele dizia que a idéia das majors era de deixar o preço de um CD nacional equivalente com o de um CD gringo. Então, você chega para comprar o novo álbum da PJ Harvey e está R$ 39, aproximadamente US$ 13, preço de um CD nos Estados Unidos. É preciso muita percepção para notar que não é possível comparar a economia norte-americana com a brasileira? Que pouca gente tem condições de pagar esse preço por um CD no Brasil? E se formos comparar um CD independente (por exemplo, da Monstro Discos) com um CD de uma major, não veremos nenhuma diferença: a qualidade de gravação, a arte gráfica, o produto é totalmente equivalente. E um CD independente sai exatamente pela metade do preço. O Wander Wildner vende o CD dele por R$ 15!!!!!

Então esse papo de que a Internet colaborou para o fim das revistas é uma tremenda balela. Por exemplo: enquanto eu tiver uma grana sobrando, eu vou comprar uma Uncut, que, para mim, é a melhor revista de música do mundo. Só que seria utopia acreditar que uma revista como essa cresça no Brasil. É preciso começar de cima. É preciso reestruturar o mercado, gravadoras, rádios. Se nós tivéssemos um mercado cultural saudável, teríamos boas revistas com grandes tiragens.

Existe alguma chance, ainda que remota, de o Scream & Yell voltar enquanto zine?

Eu, sinceramente, espero que o Scream & Yell volte. O que acontece é que eu sempre consegui conciliar o tempo no emprego que paga as contas, as cervejas e os CDs com um tempo de folga em que eu editava o Scream & Yell. Mas ultimamente não estou conseguindo. O meu trabalho é absurdamente envolvente, não há como me desvencilhar, não sobra tempo. Então quando chego em casa não quero saber de jornalismo (risos). Mas a idéia é ter um trabalho mais leve que permita pagar as contas e manter o Scream atualizado. Eu sempre disse que o Scream & Yell era um site tosco e passional demais, o que soava um tanto desrespeitoso da minha parte com algo que me surpreendeu mais do que qualquer coisa na vida. De um tempo para cá tenho admirado demais esse projeto que nasceu tão idiotamente (em um dia de natal) e, depois de quase oito anos, após ter se envolvido na vida de tanta gente, me orgulha demais. Ele vai voltar sim, provavelmente reformulado visualmente, mas com as mesmas ideias editoriais. Não dá para dizer ao certo se será em uma semana, um mês, ou até o fim do ano. Mas ele voltará.

Veja outras entrevistas aqui

setembro 18, 2007   No Comments

Cenas da vida em São Paulo: O acidente

Toca o telefone na casa Callegari Costa. Eu atendo:

– Alô
– Alô. É o Marcelo?
– Sou eu mesmo.

Do outro lado da linha, a pessoa parece gaguejar, mas continua:

– Oi, Marcelo. Aqui é o Antônio. Fui eu… que peguei você na Consolação… na sexta-feira.

Paro alguns segundos e começo a pensar: me pegou na Consolação? Será que eu peguei um taxi? Sexta? Mas eu voltei de Buenos Aires na quinta, e nem foi de taxi. Será que eu esqueci algo no ônibus? Será… ahhhh, o senhor que me atropelou…

– Oi seu Antonio!
– Oi, Marcelo! Eu estava ligando para o seu celular, mas a ligação não estava completando. Então peguei o seu telefone no boletim de ocorrência. Liguei hoje e a sua faxineira atendeu. Ela disse que você devia voltar bem tarde…
– Sim, sim.
– Eu até passei na sua rua, mas não encontrei o número do seu prédio…
– Eu acho que ainda estava meio grogue na hora que falei com o policial…
– É, pode ser. Está tudo bem com você? Não dormi direito esses últimos dias.
– Está tudo bem sim, seu Antonio. Uns arranhões, uns roxos, mas está tudo ótimo. Mais uns dias e estou inteiro…
– Que bom, que bom. Olha, eu dirijo desde 1973, e nunca tinha acontecido isso comigo. Rezei para que você estivesse bem…
– Também nunca aconteceu comigo, mas sem problema, estou me recuperando e o importante é que não quebrei nada…
– Fico mais aliviado, viu. Você está precisando de alguma coisa?
– Não, não, muito obrigado. Está tudo ótimo…
– Se precisar, pode ligar, viu. E eu ainda não sei dizer o que aconteceu…
– Não se preocupe, por favor. Estou bem mesmo. E tinha que acontecer. O importante é que não aconteceu nada mais grave.
– Isso é verdade. Então se cuide. Vou ligar daqui alguns dias para saber se você se recuperou bem.
– Pode ligar. Agradeço a sua preocupação!
– Fique com Deus.

setembro 10, 2007   No Comments

Resuminho

Bem, aproveitei o feriado para me dedicar ao descanso. Dormi bastante, terminei a estante de CDs, vi apenas um filme, vi apenas um show, bebi apenas uma taça de vinho, mas estou beeeem feliz. Mas vamos por partes, como diria o Jason, certo. Por isso, preciso voltar o calendário até terça-feira passada…

O uruguaio Jorge Drexler fez um show impecável no charmoso teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo, terça-feira passada. No repertório, além de canções próprias, Drexler apresentou covers pungentes de Radiohead (”High and Dry”, presente no álbum mais recente do cantor), Leonard Cohen (”Dance Me to the End of Love”), Titãs (a boa “Disneylandia”) e Caetano Veloso (”Sampa”). Esta última rendeu um dos momentos mais divertidos do show. Drexler contou que pensou em tocar a canção assim que desceu em São Paulo, após viajar de Nova York para Madri, e de lá para a capital paulistana. Chegando na cidade, pensou em tocar o clássico de Caetano, e foi procurar no Youtube uma versão para tirar os acordes corretos. Deu de cara com João Gilberto interpretando a música. “Era um delírio de acordes maravilhosos e complicados que quase desisti”, comentou o músico, que por fim encontrou um vídeo com um cara de pijama ensinando a tocar a canção. “Agradeço a esse músico anônimo”, brincou, para depois fazer um interpretação – com toques de milonga – da música que homenageia a cidade.

A versão de Drexler ficou bastante interessante, principalmente por flagrar o olhar de um montevidiano sobre essa selva de pedra que assusta e encanta. Fui atrás do vídeo no Youtube, e o mais próximo do cara de pijama que encontrei foi este vídeo abaixo. Como completemento, o registro de “Sampa” na voz de Drexler. De arrepiar…

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Na quarta-feira teve viagem para Araraquara, para o bate papo com a turma de jornalismo da Uniara, na 7ª Semana de Jornalismo da faculdade. O amigo Itaici me recebeu, e como cheguei meio em cima da hora, deu tempo para um banho rápido e só. Na faculdade, até me senti uma celebridade. Várias entrevistinhas rápidas dos alunos, e um longo bate papo no teatro contando minha história no jornalismo, e principalmente minha visão sobre o jornalismo na web, tema principal do bate papo. Preciso dizer que não foi a melhor das palestras (apesar de ter sido a minha melhor palestra), mas o pessoal participou fazendo perguntas, rindo das piadinhas ínfames (necessárias em qualquer boa palestra que se preze) e ouvindo meu breve resumo de oito anos atuando na área. Agradecimentos especiais ao Prof. Martineli, dono da cadeira Jornalismo Online na Uniara, a professora Marina Amaral, coordenadora dos cursos de webdesigner da faculdade, e ao amigo Itaici, que fez a loucura de me levar pra lá (mas no fim das contas, valeu a pena, vai).

Depois da palestra, e de um bom prato de gnhoqui, discotecagem no Caibar. Não vou, de maneira alguma, lembrar o set list, ainda mais que as Pipetes 🙂 foram dançar e me deixaram discotecando, discotecando, discotecando (como se fosse ruim, sabe – hehe), mas o que eu lembro é isso ai embaixo:

Slow Wands Brit Remix, Interpol
Head On, Pixies
I Love Rock and Roll, Jesus and Mary Chain
Bang Bang Your Dead, Dirty Pretty Things
Can’t Stand Me Now, Libertines
Sparky’s Dream, Teenage Fanclub
Teddy Picker, Arctic Monkeys
The Good Life, Weezer
Henrietta, The Fratelis
When You Were Young, Killers
Thissssss Fire, Franz Ferdinand
Dashboard, Modest Mouse
Honk Kong Garden, Siouxie and The Banshees
One Way or Another, CSS
LOndon Calling, Clash
Damaged Gods, Gang of Four
Berlin, BRMC
Somethin’ Hot, Afghan Whigs
Please Mr. Postman, Backbeat
Pull Shapes, The Pipettes
Can’t Take My Eyes Off You, Manic Street Preachers
Smile (Version Mark Ronson), Lily Allen
Young Folks, Peter, Bjorn & John
Out Of Time, Ramones
Walk Like An Egyptian, The Feelings
Magick, Klaxons
All Rights Reserved, Chemical Brothers
Out of Control Remix, Chemical Brothers
No One Knows Remix, QOTSA
Let’s Dance, The Futureheads
Run, Run, Run, Echo and The Bunnymen
I Wanna Be Your Dog, Iggy Pop
Disco 2000 Pub Version, Nick Cave
Shuffle Your Feet, BRMC
Suicide Sally, Primal Scream
Don Gon Do It, Rapture
Lovely 2 C U, Goldfrapp
Standing In The Way Of Control, The Gossip
Gold Lion Diplo Remix, Yeah Yeah Yeahs

A balada acabou 3 e pouco da manhã, quase 4. Entre bate papos e despedidas, fui chegar no hotel 4h30, e apagar ás 5, para levantar às 7 e voltar para São Paulo e encarar uma edição de capa até às 21h. Isso explica o sumiço, né? 🙂 Bem, apaguei na madrugada de quinta. Acordamos, eu e Lili, pós meio-dia no feriadão, e fui terminar os ajustes da estante, que só foram finalizados realmente na madrugada desta segunda-feira. Assim que der, posto uma foto aqui. Sai pouco de casa no feriado. Fui ver o show matador que o Terminal Guadalupe fez no Inferno (pruns dez gatos pingados, mas a apresentação foi profissa), terminei a segunda temporada do Friends e assisti a comédia romântica “Amor aos Pedaços”, fofinha mas dispensável se você está feliz e não tá ligando muito pra esse papo de coração partido. Acho que na outra vez que vi eu devia estar melancólico, mas o filme vale.

setembro 4, 2007   No Comments